Vigésimo nono dia – A sua história é um grande mashup

Para começar, acho importante definir mashup. É algo como uma música construída de duas ou mais outras músicas já existentes. Não é como o remix, que é uma releitura de uma música apenas.

Particularmente eu gosto muito do DJ Girl Talk. Cê pode inclusive baixar o terceiro álbum dele de graça (vou tentar colocar o link no final do texto se der tempo).

Eu demorei muito para ler, e nem cheguei a terminar, O Silmarillion, que seria algo como o Livro de Gênesis de Senhor dos Anéis, ou da Terra Média.

Resumindo o começo do mundo, tudo foi criado por um carinha chamado Eru (Deus) e seus “filhos”. Mas eles cantavam pra criar as coisas. O mal nesse universo surgiu porque um dos filhos mais poderosos passava tempo demais sozinho e admirando a escuridão e o vazio… daí ele desafinou a música e meio que transformou a obra perfeita em algo com partes ruins.

Enfim, isso é só a primeira parte e muito vem depois daí.

Mas eu quero chegar na parte onde eu digo que a sua/minha história é como uma música que acaba encontrando com outras músicas ao longo da vida e o resultado disso é uma nova melodia completamente diferente daquilo que se pretendia ou se imaginava.

Nem sempre um mashup fica perfeito, muitas vezes eles acabam se tornando famosos apenas em certos círculos. Muita gente critica porque os artistas de mashups não criam, eles transformam algo que já existe. O que não é necessariamente algo ruim, porque nossa história é exatamente isso, é pegar pedaços de coisas que já existem e formar algo novo.

Resumindo esse texto maluco: você é um pedaço de cada pessoa que já passou na sua vida, assim como cada um lá fora que já te encontrou carrega um pedaço seu.

Clique aqui para acessar a página de download do CD.

Vigésimo oitavo dia – Mil e oitocentos segundos

Alguma vez você já tentou falar sem parar por 60 segundos? Claro que pausas para respirar são permitidas. Certa vez, ainda na faculdade, me pediram para passar 1 minuto falando sem parar.

Para algumas pessoas isso pode parecer fácil, existem aquelas que realmente fariam com simplicidade esse exercício e até poderiam partir para tempos maiores. 120 segundos falando sem parar. 300 segundos de puro monólogo. Mas, acredite em mim, 1.800 segundos é muito tempo para se manter falando. Sozinho.

Vamos acrescentar algumas regras ao desafio. Você só pode tratar sobre acontecimentos dos últimos 10 anos. Somente boas memórias devem ser citadas. Escolha uma pessoa que tenha feito parte da sua vida durante esse período e ela deve estar relacionada de alguma forma com aquilo que você tem pra falar.

E você precisa fazer isso voluntariamente.

Hoje não tenho muito o que falar. Tenho usado o pouco que ainda me resta de sanidade e forças para tentar ser positivo. Mas é claro que isso só me deixa mais cansado.

Há alguns anos foi relativamente fácil transformar frustração em motivação para estudar. Hoje eu só consigo jogar e ouvir música.

Até para falar por 60 segundos é esperado uma pausa para pegar fôlego… acho que preciso parar e respirar.

Vigésimo sétimo dia – Sobre abraços fortes

Vocês já repararam que existem pessoas que abraçam com certa distância? Ou meio de lado? Ou só abraçam com um braço, deixando o outro numa posição meio defensiva junto ao corpo? Não estou criticando quem o faz, apenas acho interessante prestar atenção nesse tipo de coisa.

Em Doctor Who, certa encarnação* não gosta de abraços, evitando-os sempre que possível. E passamos boa parte de uma temporada sem nenhuma explicação do motivo, até que em determinado momento o personagem diz algo como “abraços são apenas uma forma de esconder o seu rosto”. Você não consegue normalmente ver o rosto de quem está abraçando…

Mas talvez esse seja o objetivo.

Nunca realmente pesquisei de onde surgiu o abraço.

Talvez seja um ato natural do ser humano, como música e dança.

Sabe, em diversos lugares diferentes, de formas diferentes, várias culturas, sem nunca terem tido contato umas com as outras, “inventaram” a música e a dança.

Talvez a nossa espécie exista para abraçar.

Nos calorosos reencontros ou nos tristes momentos, onde o contato do nosso rosto com o ombro alheio é o suficiente para soltar aquele nó na garganta.

Abrace mais. Deixe que te abracem.

Caso nunca tenha encontrado alguém com um abraço apertado, daqueles que aquecem até a alma, não custa nada se tornar um.

*Cada ator de Doctor Who é uma versão diferente para o mesmo personagem. Como se ele deixasse de existir e desse lugar a outra pessoa.

Vigésimo sexto dia – Dormência

Ok, estou tentando voltar. Depois de quase duas semanas sem conseguir escrever nada não acadêmico.

Não quero ou não consigo dar explicações sobre o motivo.

Não é algo simples.

Ok, sabe quando você está acordando depois de uma noite de sono daquelas que derruba mesmo seus sentidos? Quando você precisa se esforçar para lembrar qual dia da semana?

Sabe a sensação de beber até as extremidades do seu corpo começarem a “sumir” dos seus sentidos? Conheço pessoas que deixam de sentir seus narizes…

Você alguma vez pulou em águas geladas, seja em Presidente Figueiredo, em rios ou lagos na Europa ou só numa manhã muito fria dos últimos tempos pelo resto do Brasil?

Para todas essas situações há alguma solução ou forma de fazer passar a dormência.

Você eventualmente fica sóbrio, pode se aquecer, simplesmente desperta, etc.

Mas e quando é o inverso? Quando você quer deixar de sentir? Quando você quer ficar no automático? Deixar de lembrar? E não pode…

Um dos eventos mais potencialmente destrutivos que eu conheço é o choque térmico. O encontro, sem equilíbrio ou preparação, de algo cuja temperatura/agitação de moléculas é gigante com outro algo onde a temperatura/agitação de moléculas é mínima.

E é assim que tô me sentindo.

A vontade de gritar é igual e inversamente proporcional aos momentos em que fico encarando o vazio… quase esperando que ele encare de volta.

Vigésimo quinto dia – Sobre pequenas superstições

Sabe aquele hábito de entrar num lugar primeiro com o pé direito, bater na madeira quando algo ruim é dito? Queria conversar um pouco sobre essas nossas crendices.

Pois é, por alguma razão que não me lembro ao certo, tenho uma superstição que gosto de destacar: acredito que qualquer coisa que aconteça pelo menos uma vez pode nunca mais se repetir, mas, se algo ocorrer duas vezes, é quase certeza uma terceira.

Recentemente ouvi isso novamente num podcast e voltou a sensação de que isso é uma verdade. Mesmo sem ter um fundamento científico, ou talvez até tenha e apenas não conheço…

O importante é que essas pequenas manias, atitudes, crenças, etc. nos movem e formam nossa personalidade.

São as despedidas com “vá/fique com Deus”, as nossas homenagens formais “queria agradecer primeiramente a Deus”, ou coisas menores como pedir orações para amigos/familiares doentes.

Acho interessante reconhecer essas coisas. Talvez me ajude a entender qual parte de mim ainda é religiosa. Ou qual parte de mim não é mais.

Vigésimo quarto dia – Pessoas normais

Toda vez que penso em Déficit de Atenção, com ou sem hiperatividade, ou Transtorno Obsessivo Compulsivo, ou Transtorno de Ansiedade, é quase automático lembrar de um amigo que sempre cita o Bill, dos filmes do Tarantino, Kill Bill, especificamente no Vol. 2:

Em determinada cena, o personagem menciona que o seu super herói favorito é o Super Homem. Segundo este, os demais heróis se vestem para assumir o manto, menos o Super. Ele é o Super Homem o tempo todo, ele decide se vestir de Clark Kent, escolhe ser uma pessoa normal.

Essa ideia sempre surge quando imagino como deve se sentir uma pessoa normal. Como deve ser uma pessoa que não duvida de si mesmo o tempo todo, como deve ser uma pessoa que não se distai toda vez que o telefone toca na sala, etc.

Provavelmente não existem tantas assim no mundo, mas acreditar nisso costuma ser reconfortante.

Vigésimo terceiro dia – Formalidades

Tenho pensado sobre como trato as pessoas. Percebi que é bem comum usar “vossa senhoria”, ou chamar operadores do direito em geral de “doutor” (alguns de maneira íntima e descontraída), etc.

Hoje, bem como por boa parte deste final de semana, não sabia o que dizer ou escrever. Acho que é isso que os escritores profissionais chamam de “dar branco” ou “bloqueio criativo”.

As coisas não sumiram, não deixaram de ocorrer, na verdade até muito aconteceu. Eu só não sabia, e talvez ainda não saiba, como me expressar. E eu acho que essa é a razão pela qual as formalidades surgiram em minha vida.

Nunca realmente aprendi a falar com pessoas. Em muitos momentos ainda não sei o que dizer. Por isso chega a ser natural tratar todo mundo de maneira tão polida, é basicamente por falta de alternativa.

Chega a ser engraçado, mas também incômodo, como o meu jeito de falar com os outros é um ato, uma aparente defesa contra a minha insegurança e falta de capacidade social.

Quando você se deparar com uma situação que não saiba como resolver, seja formal.

Vigésimo segundo dia – Remédios

Por burrice e preguiça, estou doente há quase uma semana e sem tomar remédios. É uma simples gripe e começou com um incômodo na garganta que já resultou até em leve febre. Claro que as condições peculiares do último final de semana, somado com o feriado, acarretaram em má alimentação e desidratação eventual.

Acontece que as coisas começaram realmente a incomodar com a tosse. Que resultou já em breves crises de falta de ar. Ontem estava particularmente difícil de dormir e tomei a decisão de passar vick nos pés (na verdade foi uma dica/ordem da minha mãe). Daí, por ~saudosismo~ dos tempos de criança, decidi passar no pescoço e amarrar uma camisa.

Novamente por burrice e preguiça, amarrei a camisa com um nó gigante e me deitei e foi praticamente como tomar um chute no pescoço. Tipo, foi instantânea a dor e o torcicolo. Tentei achar uma posição confortável, apliquei um emplastro (salompas) e nada.

Foi provavelmente a pior noite de sono da minha vida.

Quando eu achava uma posição com pouca dor, começava a tossir e fazia tudo piorar. E era outra luta para conseguir me estabilizar. Em algum momento, essa sequência de despertar e sentir as fisgadas e pontadas gerou uma dor de cabeça.

Em resumo, de manhã eu tomei alguns remédios para dor, apliquei gelo, tomei anti inflamatório e agora estou meio retardado no trabalho. Estou inclusive escrevendo para tentar melhorar a minha percepção.

Acho que vou comprar remédio pra gripe mais tarde…

Vigésimo primeiro dia – Grito de Guerra por acidente

Em meados de 2013, ali pela época da Copa das Confederações, véspera do ano da Copa do Mundo no Brasil, numa campanha para venda de carros, foi lançada uma música que viria a se tornar um hino de manifestações… e eu vou deixar até aí, porque é isso que o “Vem Pra Rua” significa pra mim. Palavras de ordem que resumem um clamor para a ação ou pelo menos a manifestação da insatisfação.

Por diversas razões, que expor aqui levaria bem mais que dez minutos, ando repensando muito a minha vida. Principalmente de 2006 pra frente. O ano em que entrei no curso de engenharia.

Eu sempre fui bem pedante. Ainda sou. Mas até que tô melhor desse sentimento ruim soberbo.

Mas em 2006 fui tipo um vale, ou pico, no meu comportamento babaca. E as coisas só foram acontecendo na minha vida de forma bem bizarra e deu uma estabilizada ali em 2008/2010.

Deu até uma certa melhorada e foi avançando numa jornada de desconstrução ou auto descoberta. Chame como quiser, mas eu gostava de pensar nisso como uma busca por coerência.

2013 foi justamente o ano em que achei o que eu queria pra minha vida. Com uma música bem animada, que embalava pessoas simpatizantes da insatisfação coletiva, fui pra rua pra tentar demonstrar que o sistema tá errado e seria, no mínimo, agradável dar uma melhorada.

Claro que não existe vácuo de poder e movimentos tão espontâneos e “desorganizados” eventualmente foram capitalizados e transformados em uma massa de manobra para fins específicos.

Cê quer ver uma diferença sobre manifestações pró interesses e contra interesses dos poderosos? Para apoiar a saída da Dilma, até o Metrô de SP ficou gratuito… enquanto que, com pessoal que começou pedindo o não aumento de R$0,20 centavos na passagem, teve até fotógrafo perdendo olho com tiro de bala de borracha…

Bom, isso rende muito papo, mas hoje eu só queria lembrar que um dia, um publicitário, sem querer, criou um grito de guerra que, combinado com diversos outros fatores, escreveu história nesse país.

Pena que era comédia dramática, quando precisávamos de uma aventura épica…

Vigésimo dia – Pós feriado

E começa mais uma semana. Depois de 5 dias para sonecas, estudos, atividades ao ar livre, sair com os amigos, assistir série, documentários, ler livros, etc… eu só sei que dormi muito. E ainda assim foi pouco.

Até a semana passada, minha ansiedade andava rondando como um gato do mato que se prepara para encontrar o melhor ângulo para o ataque, era como um farfalhar meio seco, acompanhado de pequenos galhos quebrando e o sabor do medo.

Dormir aparentemente me fez bem. Já nem estou tão preocupado, mas ainda assim sei que não posso depender dos feriados prolongados. Porque, assim como aquela gostosa sensação de achar dinheiro no bolso da calça, isso não acontece todo dia. Com exceção das pessoas que tem problemas de memória. Mas talvez não seja tão bom pra elas… não sei.

Enfim, uma amiga me mandou um link sobre meditação e de cara o locutor me mandou sentar de forma confortável e num lugar onde ninguém fosse me incomodar… existe isso?

E a pior parte foi que o vídeo tinha 18 (dezoito) minutos. Não aguentei 2. É como ouvir o Chaves, depois de te atazanar ao limite, dizer “tá bom, mas não se irrite”…

Imagine a sensação.

Por hora, respirar fundo tá me ajudando a evitar o bote. Mas dormir também ajuda. Deveria fazer mais.