Trigésimo primeiro dia – Até o espírito da escada morreu

Para quem não conhece, a expressão “O Espírito da Escada” é resumidamente a sensação de descobrir um argumento, ou resposta perfeita para alguma discussão, após já ter passado a oportunidade.

Eu a conheci com Sandman e o contexto usado foi perfeito; um dos personagens acaba discutindo com o outro num apartamento e vai embora descendo as escadas e durante os quadrinhos ele pensa numa solução melhor para o conflito que estava se passando.

Acho que, em parte, a culpa é do fato de já ter passado MUITO tempo discutindo na internet… isso meio que matou boa parte da minha vontade de falar. Eu já realmente escrevi bons textos ou respostas e percebi que não iria fazer a menor diferença postar aquilo. Inclusive mais de uma vez já apaguei textos daqui.

Recentemente acabei ouvindo uma discussão sobre corrupção e cogitei me intrometer apenas para citar a legislação sobre o tema, dizer que existe diferença entre falta administrativa e crime (a conversa girava em torno do argumento de que um servidor público que falta ao trabalho está cometendo corrupção também), mas eventualmente percebi que isso não iria realmente agregar nada para aquelas pessoas.

E isso é porque atualmente acredito que boa parte das pessoas acabam cheias de certezas por alguma razão que não consigo compreender. Meio complicado de entender, eu sei.

Talvez seja a religião, talvez sejam todas as informações que nos bombardeiam diariamente, pode até mesmo ser por causa da nossa criação (só lembrando que você não é metade da pessoa especial que a sua mãe te diz).

O que realmente me faz diminuir a quantidade de coisas que eu digo é o fato de saber que não faz diferença para boa parte das pessoas que estão aqui para ouvir. Isso também acaba por me tornar mais seletivo nas minhas conversas.

A vantagem é que até as pessoas com quem acabo me relacionando são aquelas que quero ouvir. Caso isso possa ser considerado alguma vantagem.

Trigésimo dia – Dois fungos entram num bar…

Ontem comecei a última temporada de Orphan Black, sem saber que ainda está sendo exibida e agora preciso acompanhar os episódios toda semana… vai ser um exercício de paciência e dedicação. Talvez um aquecimento para a terceira temporada de Mr. Robot.

Eu particularmente prefiro fazer maratona de séries. Sentar pra assistir e não parar até não ter mais com o que me preocupar. Até o ano seguinte.

O título de hoje tem relação com um diálogo de dois cientistas sobre fungos num queijo “discutindo religião”. Eles debatem sobre qual seria a origem do queijo, se este teria vindo da bandeja onde se encontravam, ou se havia vindo do céu, mas nenhum deles chega a imaginar uma vaca.

Particularmente achei um ótimo diálogo e só me fez pensar no quanto as coisas precisam estar alinhadas para darem certo. Ou terem um resultado mínimo satisfatório.

Eu só gostaria de escrever hoje sobre o quão desmotivado fico ao ser incumbido de uma tarefa que não faz sentido, ou não existe razão para ela ser feita daquele jeito.

Tenho que emitir um relatório para um planejamento ficcional, com datas de um cronograma que nunca é seguido, além de já ter sido modificado informalmente, citando valores que provavelmente serão alterados, com informações que tive de estimar/chutar. Estou há alguns dias nisso e minha vontade de continuar só vai diminuindo…

Eventualmente vou terminar essa tarefa, porque ser adulto é fazer aquilo que te mandam fazer, mesmo que não entenda, porque precisamos do salário pra pagar Netflix.

PS: Como disse no começo, costumo fazer maratona e acho uma merda que fica postando spoiler de série.

Vigésimo nono dia – A sua história é um grande mashup

Para começar, acho importante definir mashup. É algo como uma música construída de duas ou mais outras músicas já existentes. Não é como o remix, que é uma releitura de uma música apenas.

Particularmente eu gosto muito do DJ Girl Talk. Cê pode inclusive baixar o terceiro álbum dele de graça (vou tentar colocar o link no final do texto se der tempo).

Eu demorei muito para ler, e nem cheguei a terminar, O Silmarillion, que seria algo como o Livro de Gênesis de Senhor dos Anéis, ou da Terra Média.

Resumindo o começo do mundo, tudo foi criado por um carinha chamado Eru (Deus) e seus “filhos”. Mas eles cantavam pra criar as coisas. O mal nesse universo surgiu porque um dos filhos mais poderosos passava tempo demais sozinho e admirando a escuridão e o vazio… daí ele desafinou a música e meio que transformou a obra perfeita em algo com partes ruins.

Enfim, isso é só a primeira parte e muito vem depois daí.

Mas eu quero chegar na parte onde eu digo que a sua/minha história é como uma música que acaba encontrando com outras músicas ao longo da vida e o resultado disso é uma nova melodia completamente diferente daquilo que se pretendia ou se imaginava.

Nem sempre um mashup fica perfeito, muitas vezes eles acabam se tornando famosos apenas em certos círculos. Muita gente critica porque os artistas de mashups não criam, eles transformam algo que já existe. O que não é necessariamente algo ruim, porque nossa história é exatamente isso, é pegar pedaços de coisas que já existem e formar algo novo.

Resumindo esse texto maluco: você é um pedaço de cada pessoa que já passou na sua vida, assim como cada um lá fora que já te encontrou carrega um pedaço seu.

Clique aqui para acessar a página de download do CD.

Vigésimo oitavo dia – Mil e oitocentos segundos

Alguma vez você já tentou falar sem parar por 60 segundos? Claro que pausas para respirar são permitidas. Certa vez, ainda na faculdade, me pediram para passar 1 minuto falando sem parar.

Para algumas pessoas isso pode parecer fácil, existem aquelas que realmente fariam com simplicidade esse exercício e até poderiam partir para tempos maiores. 120 segundos falando sem parar. 300 segundos de puro monólogo. Mas, acredite em mim, 1.800 segundos é muito tempo para se manter falando. Sozinho.

Vamos acrescentar algumas regras ao desafio. Você só pode tratar sobre acontecimentos dos últimos 10 anos. Somente boas memórias devem ser citadas. Escolha uma pessoa que tenha feito parte da sua vida durante esse período e ela deve estar relacionada de alguma forma com aquilo que você tem pra falar.

E você precisa fazer isso voluntariamente.

Hoje não tenho muito o que falar. Tenho usado o pouco que ainda me resta de sanidade e forças para tentar ser positivo. Mas é claro que isso só me deixa mais cansado.

Há alguns anos foi relativamente fácil transformar frustração em motivação para estudar. Hoje eu só consigo jogar e ouvir música.

Até para falar por 60 segundos é esperado uma pausa para pegar fôlego… acho que preciso parar e respirar.

Vigésimo sétimo dia – Sobre abraços fortes

Vocês já repararam que existem pessoas que abraçam com certa distância? Ou meio de lado? Ou só abraçam com um braço, deixando o outro numa posição meio defensiva junto ao corpo? Não estou criticando quem o faz, apenas acho interessante prestar atenção nesse tipo de coisa.

Em Doctor Who, certa encarnação* não gosta de abraços, evitando-os sempre que possível. E passamos boa parte de uma temporada sem nenhuma explicação do motivo, até que em determinado momento o personagem diz algo como “abraços são apenas uma forma de esconder o seu rosto”. Você não consegue normalmente ver o rosto de quem está abraçando…

Mas talvez esse seja o objetivo.

Nunca realmente pesquisei de onde surgiu o abraço.

Talvez seja um ato natural do ser humano, como música e dança.

Sabe, em diversos lugares diferentes, de formas diferentes, várias culturas, sem nunca terem tido contato umas com as outras, “inventaram” a música e a dança.

Talvez a nossa espécie exista para abraçar.

Nos calorosos reencontros ou nos tristes momentos, onde o contato do nosso rosto com o ombro alheio é o suficiente para soltar aquele nó na garganta.

Abrace mais. Deixe que te abracem.

Caso nunca tenha encontrado alguém com um abraço apertado, daqueles que aquecem até a alma, não custa nada se tornar um.

*Cada ator de Doctor Who é uma versão diferente para o mesmo personagem. Como se ele deixasse de existir e desse lugar a outra pessoa.

Vigésimo sexto dia – Dormência

Ok, estou tentando voltar. Depois de quase duas semanas sem conseguir escrever nada não acadêmico.

Não quero ou não consigo dar explicações sobre o motivo.

Não é algo simples.

Ok, sabe quando você está acordando depois de uma noite de sono daquelas que derruba mesmo seus sentidos? Quando você precisa se esforçar para lembrar qual dia da semana?

Sabe a sensação de beber até as extremidades do seu corpo começarem a “sumir” dos seus sentidos? Conheço pessoas que deixam de sentir seus narizes…

Você alguma vez pulou em águas geladas, seja em Presidente Figueiredo, em rios ou lagos na Europa ou só numa manhã muito fria dos últimos tempos pelo resto do Brasil?

Para todas essas situações há alguma solução ou forma de fazer passar a dormência.

Você eventualmente fica sóbrio, pode se aquecer, simplesmente desperta, etc.

Mas e quando é o inverso? Quando você quer deixar de sentir? Quando você quer ficar no automático? Deixar de lembrar? E não pode…

Um dos eventos mais potencialmente destrutivos que eu conheço é o choque térmico. O encontro, sem equilíbrio ou preparação, de algo cuja temperatura/agitação de moléculas é gigante com outro algo onde a temperatura/agitação de moléculas é mínima.

E é assim que tô me sentindo.

A vontade de gritar é igual e inversamente proporcional aos momentos em que fico encarando o vazio… quase esperando que ele encare de volta.