Trigésimo quarto dia – Sobre doenças mentais nos filmes da Marvel

Eventualmente acabo entrando em debates sobre como a Marvel/Disney consegue captar detalhes, muitas vezes incômodos, em suas adaptações de quadrinhos para o cinema, de transtornos psicológicos.

Vou citar algumas coisas que me aparecem na cabeça agora:

1. As crises de ansiedade do Homem de Ferro. Nos quadrinhos, Tony Stark é um ex alcoólatra e muitas vezes isso acaba fazendo parte de algo importante no contexto fora das lutas, como recentemente, em Guerra Civil II, onde ele muda de grupo de reunião dos alcoólicos anônimos para não esbarrar com outra pessoa, mas ambos acabaram se encontrando no novo grupo por terem pretendido a mesma gentileza.

No cinema, em seu segundo filme, Tony chega a ficar bêbado em uma festa e passa por algumas situações hilárias e constrangedoras, como fazer piada sobre urinar dentro da armadura, contando até mesmo com uma demonstração. Mas aquilo não seguiu como linha principal do personagem, pelo menos não como sendo um problema recorrente.

Com a sua experiência de quase morte em Os Vingadores 1, começando no terceiro filme do Homem de Ferro, Stark começa a sofrer com o estresse pós traumático, chegando a ter crises de ansiedade, beirando o pânico, desenvolvendo um transtorno propriamente dito. A cena dele saindo do bar com falta de ar e entrando na armadura é bem forte para quem se identifica.

Podemos observar ainda que, em Os Vingadores 2 A Era de Ultron, Wanda Maximoff (também conhecida como Feiticeira Escarlate) explora o medo do Tony de não conseguir proteger a Terra numa possível nova invasão alienígena, motivo para este criar um sistema de defesa global (Ultron) que se volta contra a humanidade depois de dar uma conferida na internet (totalmente justificável).

Por último, isso ainda é um pouco explorado, dessa vez em Capitão América Guerra Civil, quando é revelado que um jovem voluntário, com um brilhante futuro, foi morto pelos fatos ocorridos no filme mencionado no parágrafo acima. Isso inclusive serve como uma das justificativas para o Homem de Ferro concordar que os Vingadores não podem ser uma simples força mercenária autônoma.

2. Bruce Banner/Hulk tem distimia e já tentou cometer suicídio. Durante parte do filme Os Vingadores 1, alguns personagens questionam Banner sobre a possibilidade do “Monstro Verde” aparecer do nada e como ele mantém a calma. Tony Stark inclusive chega a dar alguns choques no outro cientista, o que todos provavelmente acharam engraçado.

Durante uma cena de discussão entre os personagens, Bruce fala de maneira ríspida que ele não pode ser morto. Que ele já tentou. Em algum momento, achando que não havia mais saída, Banner disparou uma arma na própria boca, mas o Hulk simplesmente cuspiu a bala. Ele afirma que decidiu seguir em frente e apenas continuou tentando ajudar outras pessoas.

Durante a Invasão de Nova Iorque, Banner diz uma das frases mais icônicas do filme, seguida pela transformação em Hulk e a derrota de uma nave inimiga com apenas um golpe. Inclusive a cena virou Meme e é repetida até hoje. A frase é o resultado de um diálogo rápido com o Capitão América:

“Doutor Banner, agora parece uma boa hora para ficar irritado.”

“Esse é o meu segredo, Capitão: Eu estou sempre irritado.”

Distimia é uma forma “constante de depressão”. É como se o seu cérebro tivesse se acostumado a se sentir daquele jeito e isso meio que desregula toda a química da coisa. É comum pessoas assim ficarem o tempo todo irritadas.

3. Natasha Romanoff carrega forte rancor por ter sido esterilizada no treinamento para se tornar uma assassina. Essa é complicada. A personagem está “certa” em seu rancor. O problema é que na construção do roteiro ela chega a se sabotar por causa disso, quando há alguma chance de um possível relacionamento com Bruce Banner, citando os fatos ocorridos em Os Vingadores 2 A Era de Ultron. Ela chega até mesmo a se chamar de monstro por causa disso.

Existem pessoas que nascem com doenças genéticas, mulheres que precisam retirar ovários, são portadoras de alguma condição que as impede de carregar um feto. Dentre outras.

Nenhuma dessas é necessariamente um monstro. Pelo menos não por causa disso.

Existem indivíduos que são biologicamente incapazes de ter filhos, assim como há pessoas que não o querem fazer. E não tem nada de errado nisso.

Faço aqui até uma ressalva, o problema da personagem é com relação a sua autoimagem, corrompida, ou incorreta, por causa um trauma.

Acho que é isso. Pelo menos é o que dá pra colocar aqui sem me delongar ainda mais. Caso alguém queira me corrigir, adicionar informações, pode comentar aqui ou onde se sentir mais confortável. Prometo ler e responder tão logo seja possível.

PS: O texto de hoje exigiu bem mais que dez minutos, mas eu queria fazer assim.

PPS: Prometo algum dia escrever algo analisando também o filme Logan, principalmente a condição do Xavier. Não coloquei aqui porque a obra é Marvel/Fox (estúdios diferentes).

PPPS: Caso você tenha reconhecido/se identificado com algum dos sintomas ou condições que coloquei no texto, por favor, pode vir falar comigo, ou procurar ajuda de um profissional (clínico geral, psicólogo, psiquiatra, etc). Conversar é uma forma de tratamento.

Autor: Elisnei

Servidor Público. Escritor amador. Curioso e fã de tecnologia.

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