Um conto aleatório sobre vinhos e solidão

“Prestenção, porra!”

As palavras vieram acompanhadas do som estridente da buzina da moto, o som característico de pneus freando rápido sobre asfalto irregular (quem disse que ABS e EBD resolvem tudo?) e, por último, mas não menos importante, o som de vidro se chocando perigosamente alto.

Duas garrafas de vinho recém compradas. Por causa de todo o solavanco inesperado, estas balançavam perigosamente dentro da sacola, mesmo protegidas por papel.

O motoqueiro que invadira a pista já se distanciava, cortando outros carros e repetindo continuamente aquele apitar nervoso. O susto não foi algo tão incômodo, a moto de entregas saindo da farmácia e adentrando a pista acelerada poderia significar uma necessidade urgente. O problema realmente eram os vinhos.

Aliás, as garrafas provavelmente eram a solução. Ou pelo menos a melhor companhia para aquela noite, segundo alguma interpretação torta.

Chovia levemente naquele fim de tarde. Foi uma coincidência passar na frente da sua adega favorita voltando para casa. O aplicativo do celular dizia que aquela era a rota mais rápida. Toda essa confusão com um trânsito relativamente vagaroso e a ideia de que havia outro caminho mais lento era incômoda só de cogitar.

O som do carro estava mudo. A Voz do Brasil não era exatamente o que precisava ouvir, mas seu pendrive havia ficado no trabalho. Cravado no computador há dias, estático, assim como parte da sua produtividade.

A noite da sexta-feira também seria chuvosa pelo que podia observar do céu. Nada perigoso ou incômodo de verdade. Apenas uma noite levemente fria. Um problema para os sem teto. Infelizmente. Mas eram problemas que não importavam naquele momento.

“Chegar em casa, banho e vinho…”

A voz saiu sussurrada, quase uma oração, como um plano que precisa de muito mais do que atitudes para dar certo. Precisa de sorte.

O telefone vibrava eventualmente. Sabia que alguns amigos estavam planejando ir pra algum bar ou fazer algo. Começara a ler as mensagens pela parte da tarde, mas sabia que nada seria resolvido antes de pelo menos algumas dezenas de pequenos textos. Mas seu coração pedia por paz. Por um pouco de companhia própria.

E sua cabeça pedia para ser desligada. Quantos nomes e números chegaram a ser cogitados para ligar? Alguém certamente teria tempo para comer sushi ou ir ao cinema. Mas depender de alguém como muleta não era ainda uma necessidade. Ainda.

Estacionou o carro. Subiu com as compras. Cumpriu sua palavra. Naquela noite, alguém teve uma boa noite de sono. Certamente não foi quem tomou duas garrafas de vinho. Apesar do queijo ter harmonizado com tudo muito bem, a solidão não costuma fazer o mesmo…

Autor: Elisnei

Servidor Público. Escritor amador. Curioso e fã de tecnologia.

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